Páginas

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Relógio

    Um ponteiro lento
    Corre com a noite,
    Tic, tac, tic, tac...
    - Lento narrador da vida.

                   

Dormias

    Caias como folha seca
    Naquele campo cinzento,
    E a retina não montava tua imagem,
    Sentia-te longe, parecias fugir,

    Mas eu somente não enxergava
    Você dormir.

Amo o entardecer

    O embaço do céu
    Nas calhas do oeste,
    Desperta-me fulgor
    É forte quanto amor quebrado em dor.

    No ficamento remexido
    Dos galhos finos,
    Vai, volta torta
    A fruta no galho.

    O embaço do céu
    Cai despercebido, quase vejo.
    Os meus olhos fogem-se sem querer,
    Mas do lado flores, só flores conhecem,
    E murcham caladas.

Solidão

    Imensas noites de inverno,
    Com frias montanhas mudas,
    E o mar negro, mais eterno,
    Mais terrível, mais profundo

    Este rugido das águas
    É uma tristeza sem forma :
    Sobe rochas, desce fráguas,
    Vem para o mundo e retorna...

    E a névoa desmancha os astros,
    E o vento gira as areias :
    Nem pelo chão ficam rastros
    Nem, pelo silêncio, estrelas.

                         Cecília Meireles

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Pendura-se o sono

            Passam-se nos meus olhos
            Antes de dormir
            Constelações infinitas.

Das dificuldades

            Se tudo fosse mais fácil
            Não existiriam os formigueiros
            Nem muito menos as rainhas e as guerras.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Tereza é anjo

        Tereza morena
        Tereza calma
        Tereza calma, sozinha por querer.

        Vejo Tereza rondando o campo:
         - Em sonho Tereza é um anjo!
        Colhe jasmins perto de uma estrela, distraída e calma
        Não fura-se nos espinhos:
        - A rosa colhe Tereza e Tereza acolhe a rosa.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Um dia na Fazenda

      Céu azul
          Capim infinito
               Mata colorida
                     Rio dourado
      Asas de passáros tecendo os ares
      Com teias penosas:
      Pretas, brancas, verdes, rosas.

      Toalhas brancas no varal a sacudir água,
      Em batalha com o vento pequena gotícula.
      Saguis pegam bananas na cozinha
      Saltitam para os pés de pinha.
      O puleiro das galinhas cheira dia,
      Milho e comidas misturam-se aos siscados
      Dos pintinhos amarelos-pretos.

      O pé de coloral no quintal
      Ajuda as largatas vermelhas crescerem:
      - Mas como queimam seus pêlos duros!
      O cachorro pequeno late,
      Os gatos dormem debaixo das cadeiras
      Na mesa da cozinha, arranham o estofado do sofá
      E das almofadas.

      Dentes arremeçam-se sobre o telhado calhado,
      Pedidos esperados se vão junto aos dentes permanentes ou de leite.
      Seriguelas caem no chão e no telhado,
      Saguis aglomeram-se á morder
      E deixam os caroços soltos no terreiro.

      Caquitos ficam parados com os espinhos.

      No umbuzeiro
      As redes pescam o vento,
      E na maré, em meio ao lamaçal
      O homem pesca peixes, conhecendo o manguezal.

Nortunez

      Quando do longe luar do campo
      Sopra o canto a coruja,
      A nortunez invade o quarto...
      Ô, que pena tenho de dormir
      Imagino os meus peixes livres no rio, sais de manhã.

Janelinhas

     Janelinhas batem com o vento,
     Janelinhas abrem com o sol,
     Janelinhas são os olhos da casa
     A passagem do toque lunar.

     Onde janelas são postas; ficam
     Não há vento á tirá-las,
     Convidam passáros
     Dão á rua a possibilidade de conhecer a casa.

     As janelas ficam quietas
     Se com elas não se metem
     As janelas são janelas,
     mas se quisermos viram gente.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Rio

     Ciclo límpido que passa
     As mãos calejadas das senhoras
     O bebedouro do boi
     Das crianças, dos passáros...

     Vai rio
     Tú só vais, não sóis o mar
     Que vai e que vem com pressa,
     Como minha vida

     Passa rio
     Desce o riacho
     Banhando os capins
     Mergulhando os peixes

     Desce por entre pedras
     Enfrenta as humildes pedras
     Que lá fora há quem destrua com guerra
     Há quem pesque os peixes
     Há quem polua suas águas.

     Por isso o rio invade casas, sem ódio
     Enche as nuvens de água, junto ao mar(enchente).

     O rio no leito da terra
     Escorrega sempre
     Infinitamente...no seio da terra
     A qual todos iremos um dia.

     Mas tudo ao seu lugar se põe

     Já é tarde,
     E o rio vai descendo
     Com suas águas cristalinas até o riacho,
     As florestas dormem
     Com seus pulmões verdes,

     E o rio passa,
     E somente passa.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Separação

     Nas calçadas vão-se os olhos
     Seguindo os cascos do burro
     Na mão o chicote
     Na boca o grito

     Os portões fechados
     Contra um único entreaberto
     No teto da cabeça a mão
     Dos olhos á boca, água salgada

     E cascos , chicote , portões;
     Ambas prisões abriram-se
     Já não era o dedo á costurar com o dedal
     Nem o dedal á furar-se implacável, á proteger o dedo

    
     No sol forte do planalto das lembranças,
     Corria-se curvas as esquinas,
     E o planalto redondo deteriorando-se
     Em espaços longínquos soluçava, era hora de retornar ao préterito
     Mas,sem o contexto de sempre, antemão escapado.
    

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Nossos destinos


Foi num dia desses de sol
Que o vento sopra prazeroso
Que as flores se abrem deslumbrantes
Que todos sorriem sem saber porque

Quando tudo parece dar certo
Quando os passáros cantam
Quando as frutas ficam cheias de água
As ondas do mar calmas

Os beijos recebidos com afeto
Os passos leves
O silêncio eterno
O certo encontrando o certo

O cheiro da brisa:
O cheiro do mar,
o cheiro inexplicável
Que rolava pelo ar

Foi em um dia desses
Que tudo encontra seu lugar
Que caminhávamos por estradas diferentes
Indiferentes, viemos a nos encontrar.

O pintor



Brotava na pedra a flor
 brotava no olhar o ato de criar, criando...
Inventou o sol, a chuva, a terra,a pedra e saiu andando.



















terça-feira, 2 de agosto de 2011

Se houvesse




Nem folha, nem linha,
Nem tinta, nem vida,
Havia o ar, o campo,
O coração batendo

Mas não havia
Em local algum
A felicidade de viver
Nem cem porcento
Natureza viva.