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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O auto-retrato

    No retrato que me faço
    - traço a traço-
    Às vezes me pinto nuvem,
    Às vezes me pinto árvore...

    Às vezes me pinto coisas
    De que nem há mais lembrança...
    Ou coisas que não existem
    Mas que um dia existirão...

    E, desta lida, em que busco
    - pouco a pouco-
    Minha eterna semelhança,

    No final, que restará?
    Um desenho de criança...
    Corrigido por um louco!

                        Mário Quintana

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Instante crepúscular

    O céu é todo rosa
    E não concentra
    Correria ou vendaval


    Só canto
    Perfeituoso
    E vento calmo

    Só migrações,
    E amarelo
    Num instante de fuga
 
    Só escuro e claro
    Em harmonia única :
    -Tudo é instante,
    E se não aproveitado
    Nada significa.

sábado, 24 de setembro de 2011

Fevereiro

    Resvalam pássaros
    Das nuvens às folhas
    Do imperceptível vento :
    Altar
        Incenso
        Escadarias.
    Abre-se um cálice branco
    E a chuva se derrama.

                           Dora Ferreira da silva
    

Imagem inversa

    Doura as cores poucas do meu jardim o sol,
    Numa claridade entre as telhas.
    Beija em outro jardim a borboleta,
    Daqui o beijo estala baixinho.

   Sai devagarinho, devagarinho...
   Uma flor ramada e simplesinha,
   Dos cuidados de ontem
   Acumularam... saudades.

Definição imprópria ao amor 2

    Há estradas incertas e somente uma certa,
    O amor se encaixa entre as duas.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Poemeto da lua

    A lua de ouro,
    Tesouro das ruas
    Fica em grandes estouros
    De brilho louro nas rosas nuas.

Silêncios

    Quando se ouvem os louvores que têm as flores...
    Não sabemos se houve
    Surdez ou tremores...

Primeiro Canto

    Este canto
    Cheio de encanto
    Vem reluzindo
    Como a lua poente
    E o sol surgindo
    Na verticalidade
    Dos coqueiros
    No campo.

    Este canto
    Minha verdade
    Pulando de dentro
    Mui momentâneo
    No pensamento
    Que vive
    Entre medos, defesas, bondades...
    Esse canto
    É entre tantas... saudades.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Manhã...

    Manhã triste,
    Angústia prévia...
    Se riem de mim
    Os olhos das portas mudas...

    Medo de modo morto...
    Saudade sem nome...
    Lágrima sem cor...
    Manhã triste...manhã de alegria,
    Se riem, se riem...
    As bocas frias.
   ( Não existe manhã triste, é somente eu tão...)

A flor

   A flor é a alma morta
   Exalando perfume eterno.

O poema

    O poema
    Essa estranha máscara
    Mais verdadeira do que a
    Própria face.

            Mário Quintana

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Confidência

    Parede, parede... nua e marcada.
    Solidão... melodia.
    Luz vaga entre meus dedos,
    Dedos frios, momentâneo cansaço.
    Letras-mundo, um outro mundo que não é o meu,
    Mas parece tanto comigo,
    Me envolve tanto...
    Pac! o livro bate,
    Por que fechou a porta o vento?
    Vem ler furtivo e indiscreto,
    Beber a água que pinga da torneira...
    Me fazer companhia... agora,
    Porque na manhã ensolarada
    Os amigos chamam-me, Chamam-nos sorrindo,
    Agora... cílios cerrados,
    Sorrisos calados, sonhos contados amanhã.
    Onde, agora...
    Na alta noite,
    Quem?
    Me faz companhia o silêncio,
    Poeiras-nimbo ante-retina,
    Lápis, caneta, anjos, Drummond, Vinicius, Casimiro, Quintana, Cecília...
    Parede, solidão, sono...