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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Fotografias

    Tantas madrugadas de maio
    Vi passar entre o telhado
    E as ramas do boa noite.

    Quantas cinzas
    Do fogão braseiro
    Vi destilar meu coração.

    Tantas mortes sofri
    Frente ao noticiário
    Eterno da vida...

    Quantas folhas caíram
    Nesse rio que me leva
    Cheio de lírios da manhã.

    Quantas jogadas no pé da bola
    Perdi com os amigos...
    Todos ficaram pelos caminhos da minha vida.

    Sinto ausência das calçadas de janeiro!...
    De um verão pingado em gotas,
    Novo e velho em chegada,

    Sinto ausência das velhas casas,
    Das estradas,
    Das horas infinitas...

    Dos correres no terreiro,
    De camisas e beijos
    Livres como o vento.

    Quantos florescerem de rosas perdi...
    Quantas tardes não dormi
    Olhando o prado com seu vento silencioso.

    Tantas lacunas me deixaram
    Os montes depois da subida...
    As matas fechadas.

    Quantos abraços me cercaram olhando.
    Quantos passos pisaram na areia do mar...
    Quantos poentes unirão nascimentos... o dia e o luar...

    São chápeus que levantam com o vento
    E vão correndo pelo telhado 
    Do pensamento...

    São versos lembrados ao café da noite
    Sem preocupações
    Vindos da alma.

    São versos voltados pro horizonte
    Vivendo lentos para serem lidos lentos,
    Revoam com os passaros, mas para onde?

O auto-retrato

    No retrato que me faço
    - traço a traço-
    Às vezes me pinto nuvem,
    Às vezes me pinto árvore...

    Às vezes me pinto coisas
    De que nem há mais lembrança...
    Ou coisas que não existem
    Mas que um dia existirão...

    E, desta lida, em que busco
    - pouco a pouco-
    Minha eterna semelhança,

    No final, que restará?
    Um desenho de criança...
    Corrigido por um louco!

                        Mário Quintana

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Instante crepúscular

    O céu é todo rosa
    E não concentra
    Correria ou vendaval


    Só canto
    Perfeituoso
    E vento calmo

    Só migrações,
    E amarelo
    Num instante de fuga
 
    Só escuro e claro
    Em harmonia única :
    -Tudo é instante,
    E se não aproveitado
    Nada significa.

sábado, 24 de setembro de 2011

Fevereiro

    Resvalam pássaros
    Das nuvens às folhas
    Do imperceptível vento :
    Altar
        Incenso
        Escadarias.
    Abre-se um cálice branco
    E a chuva se derrama.

                           Dora Ferreira da silva
    

Imagem inversa

    Doura as cores poucas do meu jardim o sol,
    Numa claridade entre as telhas.
    Beija em outro jardim a borboleta,
    Daqui o beijo estala baixinho.

   Sai devagarinho, devagarinho...
   Uma flor ramada e simplesinha,
   Dos cuidados de ontem
   Acumularam... saudades.

Definição imprópria ao amor 2

    Há estradas incertas e somente uma certa,
    O amor se encaixa entre as duas.

Setembro (primavera)

     Depois de muito tempo
     Nasceu setembro,
     Independente,
     Molhado,
     De suor e inverno.


     Passaram-se os dias
     Foi florescendo
     Por sobre tudo,
     Todo em flores,
     Na primavera...


     Anunciou-se
     Com seu clarim,
     Depois de muito tempo,
     Nasceu setembro.
     Floresceu lá no jardim.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Poemeto da lua

    A lua de ouro,
    Tesouro das ruas
    Fica em grandes estouros
    De brilho louro nas rosas nuas.

Silêncios

    Quando se ouvem os louvores que têm as flores...
    Não sabemos se houve
    Surdez ou tremores...

Primeiro Canto

    Este canto
    Cheio de encanto
    Vem reluzindo
    Como a lua poente
    E o sol surgindo
    Na verticalidade
    Dos coqueiros
    No campo.

    Este canto
    Minha verdade
    Pulando de dentro
    Mui momentâneo
    No pensamento
    Que vive
    Entre medos, defesas, bondades...
    Esse canto
    É entre tantas... saudades.

migração d'alma

            Canto de rouxinol...
            Do quarto está aberta.
    
            Os pássaros migram
            Frente à tua janela.

            Junta os lençois macios e pesados,
            Junta e migra na valsa que embala o vento.

            Deixa as janelas abertas,
            Sol poente... lua de chegança.
       
            Deixa cantar, de canto raro e sortido,
            Os pássaros que migram na tua alma.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O enterrado vivo

    É sempre no passado aquele orgasmo,
    É sempre no presente aquele duplo,
    É sempre no futuro aquele pânico.

    É sempre no meu peito aquela garra.
    É sempre no meu tédio aquele aceno.
    É sempre no meu sono aquela guerra.

    É senpre no meu trato o amplo distrato.
    Sempre na minha firma a antiga fúria.
    Sempre no meu não aquele trauma.

    Sempre no meu amor a noite rompe.
    Sempre dentro de mim meu inimigo.
    E sempre no meu sempre a mesma ausência.

                  Carlos Drummond de Andrade

Manhã...

    Manhã triste,
    Angústia prévia...
    Se riem de mim
    Os olhos das portas mudas...

    Medo de modo morto...
    Saudade sem nome...
    Lágrima sem cor...
    Manhã triste...manhã de alegria,
    Se riem, se riem...
    As bocas frias.
   ( Não existe manhã triste, é somente eu tão...)

A flor

   A flor é a alma morta
   Exalando perfume eterno.

Definição imprópria ao amor

    Sabor doce e ardente.
    Volúpia que mente...

Casa Velha

    Havia tantos retratos pelas paredes.
    Havia tantas faces velhas.
    Havia tantas portas, tantas janelas.

    Havia uma mesa com seis cadeiras.
    Havia no centro da mesa flores artificiais,
    Mais reais do que as conversas...
  
    Havia somente um ruído entre os móveis.
    Havia uma casa sem ninguém.

O poema

    O poema
    Essa estranha máscara
    Mais verdadeira do que a
    Própria face.

            Mário Quintana

Pedra...

    Uma pedra sólida.
    Toda em sí.
    Sempre entra-me num espaço
    Entre o dedo do pé e o pensamento.
    Inevitável pedra redonda,
    Que gira, que surgi, e depois some...

    Sempre vem,
    E trás uma dor,
    Uma garra no peito,
    Um vencer suado.
    Pedra inevitável:
    Dura, rochosa, fina, moldada às estações...

    Estampilha íntima,
    Que surge mesmo
    Entre o dedo do pé e o pensamento.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Que venham invernos

    Que venham invernos,
    Num agasalhar tácito...
    Num aljôfar vaporizado...
    Num decair terno das flores.

    Que venham invernos,
    Na mesma solidão...
    Na mesma escritura do dedo.
    No mesmo parar do tempo.

    Que venham invernos,
    Gelando o quarto...
    Avivando os campos,
    Embelezando os céus...

    Que venham...
    Ruflando o pousar...
    Num rumor agradável.
    Num amendrontar d'agua...
    Numa imensa fechadura fria...

Perfume adormecido

    De noite as rosas do prado
    Exalando perfume,
    Soletram toda a vida
    Nesse descer da ladeira,
    Nesse inquietar das árvores.

    A brisa vem aos pés e congela...
    Caem demasiados pozinhos de usina :
    A neve que não senti...

    Bem devemos saber,
    Que demasiados de pranto e alegria,
    Como a neve que não desfrutamos,
    Morreremos talvez no tempo
    Como se algo não tivesse sido disfrutado... "na pouca vida".

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Confidência

    Parede, parede... nua e marcada.
    Solidão... melodia.
    Luz vaga entre meus dedos,
    Dedos frios, momentâneo cansaço.
    Letras-mundo, um outro mundo que não é o meu,
    Mas parece tanto comigo,
    Me envolve tanto...
    Pac! o livro bate,
    Por que fechou a porta o vento?
    Vem ler furtivo e indiscreto,
    Beber a água que pinga da torneira...
    Me fazer companhia... agora,
    Porque na manhã ensolarada
    Os amigos chamam-me, Chamam-nos sorrindo,
    Agora... cílios cerrados,
    Sorrisos calados, sonhos contados amanhã.
    Onde, agora...
    Na alta noite,
    Quem?
    Me faz companhia o silêncio,
    Poeiras-nimbo ante-retina,
    Lápis, caneta, anjos, Drummond, Vinicius, Casimiro, Quintana, Cecília...
    Parede, solidão, sono...

Poema de uma tarde

    O vento chorou com meus olhos...
    De memórias espaças calou meus lábios...
    Batiam janelas,
    Coisas mais...
    Só ficava a buzina dos doces,
    E a concha velha na estante.