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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

No meio do caminho

    No meio do caminho tinha uma pedra
    Tinha uma pedra no meio do caminho
    Tinha uma pedra
    No meio do caminho tinha uma pedra.

    Nunca me esquecerei desse acontecimento
    Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
    Nunca me esquecerei que no meio do caminho
    tinha uma pedra
    tinha uma pedra no meio do caminho
    No meio do caminho tinha uma pedra.

                                                                  Carlos Drummond de Andrade ( 31/10/2011) - (31/10/1902)
     
                 
        

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

beleza

    Nada mais belo que uma formiga
    Fazendo de barcarola uma folha em poças.

Enigma

    A espera é uma escolha do tempo,
    Mas a ausência é inversa ao tempo.

    A espera é o amor.
    E o tempo inderteminado,
    Suponhem os mais novos,

    Que nada mais é que a chegada
    Das rugas.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Homem na rua

    O homem fica na rua
    Em sua severa seriedade,
    E vai olhando o silêncio
    - Vai achando pouco tudo quanto o envolve -
    Sem grandes pensamentos,
    O silêncio é sua fúria e sua decepção,
    Sua gritaria e seu rancor.

    O homem...
    Quem podera mais pensar
    E nada ter feito...
    O homem na rua está descalço,
    Está louco,
    Está bêbado,
    Em seus feitos

    O homem está noturno.
    Passa acompanhando o tempo
    Em seus ombros,
    E as bicicletas
    Em seus olhos cansados.
                 
                               Gonçalves Pristé                       

Rascunho de carta noturna

    À noite
    Redijo uma carta.
    Sem forma, sem selo.

    A fumaça sobe da xícara.
    A tinta da caneta endurecera.
    O que importa?...

     Minha carta embora já enviada
     É a própria noite.

sábado, 8 de outubro de 2011

Breviedade e beleza

    Os meus sonhos são partilhas
    Entre borboletares e pisares...
    ( A beleza dos sonhos é breve quanto o amor).
    Lamparina
    Lâmpada
    Deita-se um cão.
    Muro e pedras
    O silêncio é um linho
    De melancolia.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Dor em silêncio

    Não te comovas com a orfandade dos outros
    Como eu me comovo...
    Só aprisione o croquitar do peito
    Que insistente quer derramar-se de fraqueza.
    Só não chore como eu
    Calado e sozinho,
    Corra para longe das mágoas já sentidas,
    Mas  não fique só,
    O pranto que escorre liso e lânguido,
    Não será o mesmo longe dos teus amigos,
    Não será menos doloroso se chorares como eu.

Triste encanto

    Triste encanto das tardes borralheiras
    Que enchem de cinza o coração da gente!
    A tarde lembra um passarinho doente
    A pipilar os pingos das goteiras...

    A tarde pobre fica, horas inteiras,
    A espiar pelas vidraças, tristemente,
    O crepitar das brasas na lareira...
    Meus deus... o frio que a pobrezinha sente!

    Por que é que esses arcanjos neurastênicos
    Só usam névoa em seus efeitos cênicos?
    Nenhum azul para te distraíres...

    Ah, se eu pudesse, tardezinha pobre,
    Eu pintava trezentos arco-íris
    Nesse tristonho céu que nos encobre...

                                Mário Quintana