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terça-feira, 21 de agosto de 2012

O apanhador de desperdícios

  
     

   Uso a palavra para compor meus silêncios.
   Não gosto das palavras
   fatigadas de informar.
   Dou mais respeito
   às que vivem de barriga no chão
   tipo água pedra sapo.
   Entendo bem o sotaque das águas.
   Dou respeito às coisas desimportantes
   e aos seres desimportantes.
   Prezo insetos mais que aviões.
   Prezo a velocidade
   das tartarugas mais que a dos mísseis.
   Tenho em mim esse atraso de nascença.
   Eu fui aparelhado
   para gostar de passarinhos.
   Tenho abundância de ser feliz por isso.
   Meu quintal é maior que o mundo.
   Sou um apanhador de desperdícios:
   Amo os restos
   como as boas moscas.
   Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
   Porque eu não sou da informática:
   eu sou da invencionática.
   Só uso a palavra para compor meus silêncios.

                                                      Manoel de Barros
                                   

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