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sexta-feira, 8 de maio de 2015


    Muro e pedras
    O silêncio é um linho
    De melancolia.

                      Rubens dos Santos

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Áporo

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer,exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão,mistério)
presto se desata:

em verde,sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O apanhador de desperdícios

  
     

   Uso a palavra para compor meus silêncios.
   Não gosto das palavras
   fatigadas de informar.
   Dou mais respeito
   às que vivem de barriga no chão
   tipo água pedra sapo.
   Entendo bem o sotaque das águas.
   Dou respeito às coisas desimportantes
   e aos seres desimportantes.
   Prezo insetos mais que aviões.
   Prezo a velocidade
   das tartarugas mais que a dos mísseis.
   Tenho em mim esse atraso de nascença.
   Eu fui aparelhado
   para gostar de passarinhos.
   Tenho abundância de ser feliz por isso.
   Meu quintal é maior que o mundo.
   Sou um apanhador de desperdícios:
   Amo os restos
   como as boas moscas.
   Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
   Porque eu não sou da informática:
   eu sou da invencionática.
   Só uso a palavra para compor meus silêncios.

                                                      Manoel de Barros
                                   

sexta-feira, 27 de julho de 2012

As sem-razões do amor

 

   


Eu te amo porque te amo; 
Não precisas ser amante, 
E nem sempre sabes sê-lo. 
Eu te amo porque te amo. 
Amor é estado de graça 
E com amor não se paga. 

Amor é dado de graça, 
É semeado no vento, 
Na cachoeira, no eclipse. 
Amor foge a dicionários 
E a regulamentos vários. 

Eu te amo porque não amo 
Bastante ou demais a mim. 
Porque amor não se troca, 
Não se conjuga nem se ama. 
Porque amor é amor a nada, 
Feliz e forte em si mesmo. 

Amor é primo da morte, 
E da morte vencedor, 
Por mais que o matem (e matam) 
A cada instante de amor.

Vizinhos e internautas

    Estudiosos do comportamento humano na vida moderna constatam que um dos males de nossa época é a incomunicabilidade das pessoas.Já foi tempo em que, mesmo nas grandes cidades, nos bairros residenciais, ao cair da tarde era costume os vizinhos se darem boa-noite, levarem as cadeiras de vime para as calçadas e ficar falando da vida, da própria e da dos outros.

    A densidade demográfica, os apartamentos, a violência urbana, o rádio e mais tarde a TV ilharam cada indivíduo no casulo doméstico.Moro há 18 anos num prédio da Lagoa; tirante os raros e inevitáveis cumprimentos de praxe no elevador ou na garagem, não falo com eles nem eles comigo.não sou excessão. nesse lamentável departamento, sou regra.

   Daí que não entendo a pressão que volta e meia me fazem para navegar na internet.Um dos argumentos que me dão é que posso falar com pessoas na Indonésia.Saber como vão as colheitas de arroz na china e como os melões na Espanha.

   Uma de minhas filhas vangloria-se de ser internauta. Têm amigos na Pensilvânia e arranjou um admirador em Dublin, terra do Joyce, do Bernard Shaw e do Oscar Wilde. Para convencê-la de seus méritos, ele mandou uma foto em cor que foi impressa em alta resolução. É um jovem simpático, de bigode, cara honesta. Pode ser que tenha mandado a foto de um outro.

   Lembro a correspondência sentimental das velhas revistas de antanho. Havia sempre a promessa: " Troco fotos na primeira carta". Nunca ouvi dizer que uma dessas trocas tenha tido resultado aproveitável. Para vencer a incomunicabilidade, acredito que o internauta deva primeiro aprender a se comunicar com o vizinho de porta, de prédio, de rua. Passamos uns pelos outros com o desdém de nosso silêncio, de nossa cara amarrada. Os suicidas se realizam porque, na hora do desespero, falta vizinho que lhe deseje sinceramente uma boa noite.

                              Carlos Heitor Cony

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O poeta

               






  Ser poeta é fazer da palavra coisa viva.
  É eternizar a coisa perdida.
  É ter esperança o bastante
  para aceitar uma partida.

  Ser poeta é agradecer por mais um dia.
  É chorar ou calar-se na alegria.
  É saber que as coisas não são perfeitas;
  nem poderiam...

  Ser poeta é sorrir, chorar, sentir, esperar...
  É tratar dos sentimentos
  que todo mundo vive;
  Mas que não sabem como dar forma...

  Ser poeta é não saber como dar forma
  a tudo aquilo que se sente...
  É amar cada coisa iminentemente...
  É silenciar quando o coração pressente...

  Ser poeta é olhar para tudo
  como quem descobre um detalhe
  de Deus...
  É procurar a felicidade
  nos caminhos mais ingrímis...

  É pôr em palavras
  o que Deus concede...

                                   Rubens dos Santos

* Aos amigos