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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Emergência

 


                                          


       Quem faz um poema abre uma janela.
       Respira, tu que estás numa cela
       abafada,
       esse ar que entra por ela.
       Por isso é que os poemas têm ritmo
       - para que possas profundamente respirar.
       Quem faz um poema salva um afogado.

                                               Mário Quintana

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Disfarce

    Dentro do silêncio
    tem o barulho
    de cada homem
    sério.

     Fora do barulho
     tem o silêncio
     de cada homem
     fora do sério.

Velho tema

    Só a leve esperança, em toda a vida,
    Disfarça a pena de viver, mais nada;
    Nem é mais a existência, resumida,
    Que uma grande esperança malograda.

    O eterno sonho da alma desterrada,
    Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
    É uma hora feliz, sempre adiada,
    E que não chega nunca em toda a vida.

    Essa felicidade que supomos,
    Árvore milagrosa que sonhamos
    Toda arreada de dourados pomos,

     Existe, sim: mas nós não alcançamos
     Porque está sempre apenas onde a pomos,
     E nunca a pomos onde nós estamos.

                                             Vicente de Carvalho

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Balanço

    A pobreza do eu
    a opulência do mundo

    A opulência do eu
    a pobreza do mundo

    A pobreza de tudo
    a opulência de tudo

    A incerteza de tudo
    na certeza de nada.

                                 Carlos drummond de Andrade

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Definição imprópria ao amor 3

                          Um embaraço de pernas.
                          Um colar de lábios.
                          Um gesto.
                          Um regaço.
                          Um abraço.
                          Um amor.
                           Um adeus.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Rua Morta

    Longa rua distante de subúrbio,
    velha e comprida rua não violada pelos prefeitos,
    passo sobre ti suavemente neste fim de tarde de domingo.

    Sinto-te o coração pulsando oculto sob as areias.
    O sangue circula na copa imensa dos flamboyants.

    Tropeço nos passos perdidos há muito nestas areias,
    onde as pedras não vieram ainda sepultá-los.
    Passos de homens que jamais voltarão.

    Ó velhos chalés de 1830,
    eterniza-se entre as paredes o eco das vozes de invisíveis
                                                                                     [ habitantes.
    Mãos de sombras femininas abrem de leve janelas no oitão.

    Há um cheiro de jasmins e resedás
    que não vem dos jardins abamdonados,
    mas dos cabelos dos fantasmas das moças de outrora.

                                                         Mauro mota

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Envelhecer

    Antes, todos os caminhos iam.
    Agora todos os caminhos vêm.
    A casa é acolhedora, os livros poucos.
    E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

                                   Mário Quintana

Das utopias

    Se as coisas são inatingíveis... ora!
    Não é motivo para não querê-las...
    Que tristes os caminhos, se não fora
    A mágica presença das estrelas!

                                 Mário Quintana

Inundação

    Quando chove
    procuro flores
    nos jardins, nos jornais...
    Ficam pegadas e poças
    por onde passo com o passo.
    Quem me dera
    encontrar flores,
    pássaros pequenos
    como o beija-flor.
    No jardim molhado
    o clarim de cor
    está mergulhado;
    tudo em volta
    são pétalas e folhas
    chuva e pegadas,
    e nenhuma flor inteira,
    e nenhuma vida inteira.

Canção amiga

    Eu preparo uma canção
    em que minha mãe se reconheça,
    todas as mães se reconheçam,
    e que fale como dois olhos.

    Caminho por uma rua
    que passa em muitos países.
    Se não me vêem, eu vejo
    e saúdo velhos amigos.

    Eu distribuo um segredo
    como quem ama ou sorri.
    No jeito mais natural
    dois carinhos se procuram.

    Minha vida, nossas vidas
    formam um só diamante.
    Aprendi novas palavras
    e tornei outras mais belas.

    Eu preparo uma canção
    que faça acordar os homens
    e adormecer as crianças.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

    A noite é profunda
    como as raízes
    de uma planta.

    Medita nos astros
    que boiam
    nos mares.

    A noite é mais passageira
    que uma planta
    amanhecendo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Conversa alheia

    Dentro da fala
    Tem outra fala
    Que se solta
    No ar.

    No ar fica imóvel,
    Porque quem falou
    Se esqueceu
    De lhe falar.

    Fica parada
    Entre dois mundos:
    Na confusão
    No esperar.

    A fala de dentro
    Solta outra fala
    E se esquece
    tudo no ar.

sábado, 5 de novembro de 2011

    Três pedras na água
    Ipnoze
    De tamanho.

Eu gosto...

    Eu gosto é dessa gente
    Que ao amanhecer
    Olha para o telhado desajeitado
    e fala com um ar de surpresa e entusiasmo:
    "- Obrigado!"

efêmera

    Envelheceram todas as coisas
    E outras nasceram.
    A vida está em tudo que veio,
    Ficou o bastante e se foi a ficar.
  

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Desapontamento

       Onde está aquela garra?
       Aquela coragem?
       Aquela fala?

       Onde morreu aquele sonho?
       Aquele trato com a própria vida?

       Onde está a alegria da partida?
       A chegada não vista?
       A entusiasmada luta pela esperança?

       Onde, onde...A iniciação prestigiosa...
       Aquele sonhador?
       Aquele perdedor?

       Onde está o ontem?
       Onde está o agora?
       Onde está todo mundo?
       Esgotaram-se as horas?

       Onde, onde...não sei,
       Não sei, não sei...
       
       Sei da vontade de desistir.

       No entanto, Aqui dentro
       Algo ainda insiste a...
       Continuar.

       Mas, por que?

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

No meio do caminho

    No meio do caminho tinha uma pedra
    Tinha uma pedra no meio do caminho
    Tinha uma pedra
    No meio do caminho tinha uma pedra.

    Nunca me esquecerei desse acontecimento
    Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
    Nunca me esquecerei que no meio do caminho
    tinha uma pedra
    tinha uma pedra no meio do caminho
    No meio do caminho tinha uma pedra.

                                                                  Carlos Drummond de Andrade ( 31/10/2011) - (31/10/1902)
     
                 
        

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

beleza

    Nada mais belo que uma formiga
    Fazendo de barcarola uma folha em poças.

Enigma

    A espera é uma escolha do tempo,
    Mas a ausência é inversa ao tempo.

    A espera é o amor.
    E o tempo inderteminado,
    Suponhem os mais novos,

    Que nada mais é que a chegada
    Das rugas.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Homem na rua

    O homem fica na rua
    Em sua severa seriedade,
    E vai olhando o silêncio
    - Vai achando pouco tudo quanto o envolve -
    Sem grandes pensamentos,
    O silêncio é sua fúria e sua decepção,
    Sua gritaria e seu rancor.

    O homem...
    Quem podera mais pensar
    E nada ter feito...
    O homem na rua está descalço,
    Está louco,
    Está bêbado,
    Em seus feitos

    O homem está noturno.
    Passa acompanhando o tempo
    Em seus ombros,
    E as bicicletas
    Em seus olhos cansados.
                 
                               Gonçalves Pristé                       

Rascunho de carta noturna

    À noite
    Redijo uma carta.
    Sem forma, sem selo.

    A fumaça sobe da xícara.
    A tinta da caneta endurecera.
    O que importa?...

     Minha carta embora já enviada
     É a própria noite.