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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Rua Morta

    Longa rua distante de subúrbio,
    velha e comprida rua não violada pelos prefeitos,
    passo sobre ti suavemente neste fim de tarde de domingo.

    Sinto-te o coração pulsando oculto sob as areias.
    O sangue circula na copa imensa dos flamboyants.

    Tropeço nos passos perdidos há muito nestas areias,
    onde as pedras não vieram ainda sepultá-los.
    Passos de homens que jamais voltarão.

    Ó velhos chalés de 1830,
    eterniza-se entre as paredes o eco das vozes de invisíveis
                                                                                     [ habitantes.
    Mãos de sombras femininas abrem de leve janelas no oitão.

    Há um cheiro de jasmins e resedás
    que não vem dos jardins abamdonados,
    mas dos cabelos dos fantasmas das moças de outrora.

                                                         Mauro mota

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Envelhecer

    Antes, todos os caminhos iam.
    Agora todos os caminhos vêm.
    A casa é acolhedora, os livros poucos.
    E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

                                   Mário Quintana

Das utopias

    Se as coisas são inatingíveis... ora!
    Não é motivo para não querê-las...
    Que tristes os caminhos, se não fora
    A mágica presença das estrelas!

                                 Mário Quintana

Inundação

    Quando chove
    procuro flores
    nos jardins, nos jornais...
    Ficam pegadas e poças
    por onde passo com o passo.
    Quem me dera
    encontrar flores,
    pássaros pequenos
    como o beija-flor.
    No jardim molhado
    o clarim de cor
    está mergulhado;
    tudo em volta
    são pétalas e folhas
    chuva e pegadas,
    e nenhuma flor inteira,
    e nenhuma vida inteira.

Canção amiga

    Eu preparo uma canção
    em que minha mãe se reconheça,
    todas as mães se reconheçam,
    e que fale como dois olhos.

    Caminho por uma rua
    que passa em muitos países.
    Se não me vêem, eu vejo
    e saúdo velhos amigos.

    Eu distribuo um segredo
    como quem ama ou sorri.
    No jeito mais natural
    dois carinhos se procuram.

    Minha vida, nossas vidas
    formam um só diamante.
    Aprendi novas palavras
    e tornei outras mais belas.

    Eu preparo uma canção
    que faça acordar os homens
    e adormecer as crianças.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

    A noite é profunda
    como as raízes
    de uma planta.

    Medita nos astros
    que boiam
    nos mares.

    A noite é mais passageira
    que uma planta
    amanhecendo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Conversa alheia

    Dentro da fala
    Tem outra fala
    Que se solta
    No ar.

    No ar fica imóvel,
    Porque quem falou
    Se esqueceu
    De lhe falar.

    Fica parada
    Entre dois mundos:
    Na confusão
    No esperar.

    A fala de dentro
    Solta outra fala
    E se esquece
    tudo no ar.

sábado, 5 de novembro de 2011

    Três pedras na água
    Ipnoze
    De tamanho.

Eu gosto...

    Eu gosto é dessa gente
    Que ao amanhecer
    Olha para o telhado desajeitado
    e fala com um ar de surpresa e entusiasmo:
    "- Obrigado!"

efêmera

    Envelheceram todas as coisas
    E outras nasceram.
    A vida está em tudo que veio,
    Ficou o bastante e se foi a ficar.
  

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Desapontamento

       Onde está aquela garra?
       Aquela coragem?
       Aquela fala?

       Onde morreu aquele sonho?
       Aquele trato com a própria vida?

       Onde está a alegria da partida?
       A chegada não vista?
       A entusiasmada luta pela esperança?

       Onde, onde...A iniciação prestigiosa...
       Aquele sonhador?
       Aquele perdedor?

       Onde está o ontem?
       Onde está o agora?
       Onde está todo mundo?
       Esgotaram-se as horas?

       Onde, onde...não sei,
       Não sei, não sei...
       
       Sei da vontade de desistir.

       No entanto, Aqui dentro
       Algo ainda insiste a...
       Continuar.

       Mas, por que?